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Emma, de Jane Austen

 

Confesso que quando iniciei Emma, da Jane Austen, a leitura não me prendeu desde logo. 

Comecei a ler em meados de outubro, li um pouco, a personagem principal me irritou um pouco. Larguei por um mês, retomei e terminei em quatro dias, porque depois que a história engrena, Jane Austen prova – mais uma vez – porque ela é Jane Austen.

Segundo Virginia Woolf: "Quem tem a ousadia de escrever sobre Jane Austen está ciente de que (...) de todos os grandes escritores ela é a mais difícil de apreender no ato de grandeza". Mas lá vou eu ter a ousadia de falar sobre Emma.

Ao passo em que não deseja um casamento para si – por ter fortuna e pretender ficar aos cuidados do pai hipocondríaco (o qual, aliás, rende momentos de muitas risadas) – Emma Woodhouse se vê como uma grande casamenteira, capaz de decifrar os corações e as mentes de todos ao seu redor. 

Ela se julga superior em inteligência, beleza, posição social, é admirada por todos em seu círculo, mas a despeito de sua boa posição e outras qualidades, Emma demonstra ser uma moça vaidosa, esnobe, intrometida e um tanto quanto preguiçosa - não é muito dada a leituras ou a investir com afinco em alguma atividade que lhe desse mais trabalho.

“Os efetivos males da situação de Emma, de fato, eram o poder de fazer as coisas a seu próprio modo com certa demasia e uma tendência de avaliar seus méritos numa superestimação um pouco excessiva”, o narrador nos conta.

Ela faz da Srta. Harriet Smith seu projeto principal, julgando quem deve ou não ser seu par. Faz julgamentos de todos os tipos acerca de todas as pessoas. Especula sobre a condição e os amores da Srta. Jane Fairfax, com certa maledicência. É irônica com a srta. Bates, uma solteirona faladeira.

Vale destacar que o Sr. Knightley pontua a narrativa como um contraponto sensato a Emma. Ele é "uma das poucas pessoas capazes de ver defeitos em Emma Woodhouse, e a única que sempre diz a verdade a ela".

A princípio, é impossível gostar de Emma. Aliás, a própria Austen certa feita afirmou sobre ela: "vou escolher uma heroína de quem ninguém, exceto eu mesma, vai gostar muito".

E penso que Jane Austen assim o fez propositadamente. Pois a história aqui, não é mais uma história de amor. Mas sim, a história do amadurecimento e autodescoberta de Emma. 

No prefácio de Emma, pela Penguin, Sandra Guardini Vasconcelos nos lembra que todas as personagens centrais de Austen (Emma sendo, provavelmente, o exemplo mais flagrante) são seres complexos e verossímeis justamente por suas falhas e imperfeições. "Trata-se de figuras cujos erros de julgamentos, equívocos e certezas reclamam ser submetidos ao crivo da experiência, da autoanálise e da percepção do outro para que se inicie um processo de transformação".

Mas, é inegável que Emma ama os seus com uma intensidade desmedida. E, talvez, sua juventude lhe desse arroubos de arrogância que todos nós certamente já experimentamos sentir. 

É certo que as desventuras de seus companheiros e as consequências de suas falas e ações vão ensinando a Emma, ao longo da história, sobre sua própria conduta.

“Qual desejo lhe restava? Nenhum, senão que as lições do seu desatino pretérito pudessem educá-la em humildade e circunspecção no futuro”, ela conclui.

Eu fui um pouco preconceituosa com o livro, devo admitir. Mas, ao final da leitura, me peguei pensando que talvez tenha sido o melhor de Jane Austen que li até agora.

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