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Licenciatura em Letras. Precisava mesmo de outra graduação?

Olá!

Hoje vim contar um pouco sobre uma novidade para 2024, que é a minha escolha de fazer uma terceira graduação, desta vez em Letras, pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Algumas pessoas ficaram curiosas, afinal, por que fazer outra graduação? Já não tenho um trabalho estável no Tribunal de Justiça? Que moça sem rumo, Oceanografia, Direito e agora Letras? Vou contar, pois pode ser que ajude alguém que também se sinta velho ou amarrado a escolhas realizadas lá atrás.

Tem uma frase sensacional de uma terapeuta (que era juíza e pediu exoneração), chamada Ju Oki, que diz o seguinte: "os compromissos que fizemos anos atrás não precisam ser honrados à revelia do que somos no momento presente. Devemos reafirmar essas escolas dia a dia, e podemos sempre escolher diferente".

Permitam-me uma (não muito) breve introdução.

Eu terminei o ensino médio em 2006. Naquela época eu não tinha fácil acesso à Internet, não tinha muitas pessoas na minha família com nível superior e eu amava todas as matérias da escola (sério, de química a história, de português a matemática). Ou seja, não tinha muita noção, informação ou vocação. Meu maior exemplo de sucesso era a minha prima, que havia feito Farmácia na UFMG e estava bem empregada em uma indústria farmacêutica. Eu tive, no terceiro ano, ótimos professores de Química e Biologia, que me fizeram tender mais para este lado, embora ao longo de toda a minha vida escolar eu tivesse me identificado muito mais com Português, Literatura e História. 

Fazer qualquer licenciatura nunca passou pela minha cabeça, pois cresci naquele ambiente escolar em que "você tem que ter sucesso, e ser professor é sinônimo de ser pobre e fracassado". Prestei vestibular para Engenharia Química na Federal de Viçosa, Farmácia na UFJF e na UFMG e - sabe Deus o porquê - Oceanografia, na USP. O sonho de todo vestibulando é ir pra USP e lá fui eu. E foram 5 anos em que eu, realmente, não sabia o que estava fazendo ali. Eu só reagia. Tinha matéria, tinha prova eu estudava, passava e seguia. Tentei estágio nas quatro áreas da Oceanografia (geológica, química, física e biológica) e não me via em nada daquilo.

Terminada a faculdade, sem perspectiva de emprego, fui estudar para concursos públicos, pois precisava trabalhar e me sustentar. Meus pais já haviam feito um grande sacrifício por estes cinco anos para que eu pudesse estudar, embora eu tenha feito estágios e sempre com bolsa de pesquisa, nem se compara com um salário de trabalho. Mestrado não era uma opção pois eu havia me decepcionado um pouco com a área acadêmica e eu, de fato, queria trabalhar.

Acabei passando no concurso de Escrevente Técnico no TJSP (cargo que ocupo até hoje). Quando você entra para mundo do serviço público parece que simplesmente não há mais a possibilidade de sair. A estabilidade é uma segurança (e um grilhão). Nos tornamos um pouco covardes.

Dois casos curiosos sobre isso. Uma amiga passou no concurso para ser professora em uma Universidade Federal. Teve uma proposta melhor na iniciativa privada, em uma área que ela gostava e pediu exoneração da Universidade. O RH não sabia como fazer uma exoneração de professor. Nunca haviam feito. Outro caso, eu trabalhava em uma vara e um funcionário pediu uma licença não remunerada para tentar outras coisas, caso não desse certo, pretendia voltar. Pelo déficit de funcionários, a licença foi negada e ele simplesmente pediu exoneração, foi morar num sítio no interior de Minas Gerais e plantar orgânicos. Foi um choque para todos. Hoje, eu o entendo.

Voltando ao serviço público, assim que entrei no TJ, naquele meio, o discurso era mais ou menos: "precisamos passar em um concurso melhor; quem não tem Direito não cresce, não tem oportunidades para sair; ficar como escrevente é ser estagnado". Fui fazer Direito. E, o óbvio, era continuar, então, a estudar para outros concursos "maiores". Não me via exatamente naquilo, mas segui estudando, com crises de identidade, mas o que eu faria se não fosse isso? 

Até então eu fui reagindo às situações que foram surgindo. Dez anos se passaram desde que ingressei no serviço público.

Em 2023 fiz dez anos de Tribunal. E me peguei pensando: "Será que é exatamente isso que quero fazer até me aposentar, por mais trinta, trinta e cinco anos?".

Eu tenho 35 anos. Será que eu gostaria de viver mais uma vida fazendo exatamente o que eu faço?

Pulando algumas intimidades da psicoterapia e das minhas reflexões pessoais, o fato é que em 2023 resolvi que não condizia com a vida que eu queria ter estudar para concursos e eu voltei a ler literatura (até então eu só tinha tempo para ler - muito - livros técnicos de Direito). 

Eu sempre, sempre, li muito. Desde que me entendo por gente, com cinco aninhos, tenho livros. E, voltar a ler literatura me reacendeu uma brasinha que estava quase morrendo lá dentro. A coisa que eu mais tenho paixão, na vida, é literatura. É algo sobre o que posso falar por horas, fico absolutamente encantada quando vejo pessoas lendo - especialmente se é indicação minha - , criei um clube do livro junto com a Cida, estou tocando uma leitura coletiva de Dostoiévski... Simplesmente, respiro literatura. E como eu esqueci disso?

Hoje, tenho um trabalho estável, que eu gosto, que me proporciona qualidade de vida o bastante para que, finalmente, eu possa parar de reagir ao que me acontece e passe a escolher onde quero depositar minha energia e meu tempo.

Pode ser que eu não me torne professora de literatura. Que eu continue trabalhando no TJ até me aposentar. Não sei. 

Mas sei que eu quero, ao menos, permitir a mim mesma a experiência de buscar algo por prazer. Eu amo ensinar, todos que me conhecem dizem que tenho uma boa didática, eu amo falar de literatura e o tempo vai passar de qualquer forma. Ao final de quatro anos, pelo menos, terei a oportunidade de escolher por qual caminho vou prosseguir.

Ah, e escolhi fazer no Mackenzie pois meu marido fez Mackenzie, minha cunhada fez Mackenzie e meu pai terminou, recentemente, uma licenciatura em Filosofia, adivinha onde? No Mackenzie. Se meu pai, metroviário, carregando banco de trem, todo pitimbado, conseguiu tocar (ok, com alguns percalços) a faculdade, acho que também consigo. Ademais, é EAD, o que me possibilita ter mais flexibilidade para estudar nos horários livres, não perco tempo com deslocamentos, etc.

Bem, estão aí os motivos, as idas e as vindas. Eu poderia simplesmente retomar meu canal no YouTube com as resenhas dos livros, continuar aqui no blog e no Instagram. Mas eu gosto de estudar. E quero ter um plano B para o futuro.

É isso!

Com carinho,





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