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Pais e Filhos, Ivan Turguêniev

 "O homem é mais parecido com sua época do que com seu próprio pai".

Segundo Vladimir Nabokov, "Pais e filhos é não apenas o melhor romance de Turguêniev, mas um dos mais brilhantes romances do século XIX". E ele não exagerou.

Um dos elementos que torna o livro um clássico é sua atemporalidade. Em 2024, li o livro reconhecendo em suas linhas tanto do que nos é comum hoje nas relações entre pais e filhos, e até entre amigos. No começo, talvez pela tradução, o livro não me pegou muito (essa edição que li, do Clube de Literatura Clássica, tem tradução feita pelos irmãos Guerra, em português de Portugal). Mas, conforme fui lendo e me acostumando, simplesmente não consegui largar.

A história conta sobre um par de amigos, Bazárov e Arkádi, estudantes que vão passar uma temporada na casa do pai de Arkádi, Nikolai Pietróvitch, dono de terras que espera ansioso o retorno do filho.

A narrativa vai se desenvolvendo com os diversos conflitos e choques de ideias entre as diferentes gerações. Arkádi é mais doce, gentil, de trato simples, impressionado com o amigo Bazárov, um niilista de ideias firmes e um tanto quanto arrogante em suas convicções da juventude.

Em dado momento, ambos vão para a cidade, conhecem outras pessoas, em especial Anna Serguéevna e Kátia, sua irmã. Aqui, as certezas de Bazárov sobre a inconveniência do romatismo são colocadas em xeque. Posteriormente, chegam a casa dos pais de Bazárov, gente simples e amorosa. Ambos têm receio de incomodar o filho, tão especial.

A postura dos dois jovens estudantes, Arkádi e Bazárov, de superioridade em relação aos pais é tão, tão atual! É duro ver seus comportamentos - e, pior, reconhecer neles traços de comportamentos de nossa juventude.

A cena em que Arkádi tira um livro de Púchkin das mãos do pai e o substitui por algo que julga mais adequado é emblemática.

Bazárov, especialmente, acha-se um Deus: "Tu, meu amigo, continuas parvinho, ao que vejo; os Sítnikov deste mundo são necessários. Percebes? Preciso desses idiotas. Não são os deuses que cozem os potes!".

Confesso que ao longo do livro achei Bazárov absolutamente detestável, mal educado e arrogante. No entanto, ao final, comecei a sentir um pouco de piedade. Vazio e triste, isolado em seu pedestal autoconstruído. O romantismo que ele tanto desprezou, é necessário.

Uma parte bem interessante do livro, é que ao final há um texto complementar do próprio Turguêniev em que ele narra as críticas que recebeu sobre a obra. 

"Ao mesmo tempo em que uns me acusam pelo desacato à geração dos jovens, o atraso, o obscurantismo (...) outros, pelo contrário, censuram-me, indignados pelo servilismo a essa mesma jovem geração. "Você rasteja aos pés de Bazárov!" - exclama um correspondente: "Está apenas fingindo que o condena; na realidade, você o bajula e espera, como que por clemência, por um único sorriso desdenhoso dele!"."

É uma leitura esplêndida. Recomendo muito!

Se quiser adquirir a obra, recomendo a edição que vi na casa do meu pai: https://amzn.to/48xFmOF


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